E quando o amor acaba?

Ninguém lida bem com o fim do amor. Nem um Buda saberia se despedir sem sofrer, muito menos você que é um ser humano cheio de emoções à flor da pele. Mas, antes de mais nada, entende que dor e raiva são dois sentimentos suportáveis quando separados, mas corrosivos quando sentidos à dois.

O fim do amor não é quando o relacionamento termina. Essa é apenas a consequência, sentença, burocracia, carimbo final. O sofrimento já vem antes, mas fica represado no comodismo da vida planejada com direito a canteiro de flores e filhos correndo pela casa. O adeus destrói a contenção e inunda o terreno seguro. Faz a casinha com goteiras de onde você tanto reclamava, se tornar um palácio nas suas lembranças. O passado não mudou. Mas a sua perspectiva sobre ele, sim.

O fim do amor embaralha, enlouquece os sentidos. Faz pensar no outro como a melhor criatura do mundo. Ele vai parecer ser o amor da sua vida e mesmo nas vezes em que desejar outro, esse mesmo outro vai desaparecer da sua memória como num passe de mágica. Era ele, tinha que ser ele, era absolutamente certo de que seria ele.


Quando a raiva sair de cena, quando a vontade de esmurrar a porta passar, no palco estarão protagonizando juntos, a mesma cena, você e o que você sente, como numa dessas peças de improviso, em que nem um nem outro sabem qual é o próximo diálogo, o próximo movimento. A vida, por um tempo, vai ficar em suspenso. Tu não sabe se vai sentir mais vontade de reclamar do ex-amor ou admitir que ainda sobrou um resquício de paixão.

Logo depois vai chegar a vontade da vingança. Vai começar a se cuidar mais ainda, vai frequentar com mais frequência os lugares movimentados pela cidade. Seus contatos irão aumentar, a quantidade de roupas mais ousadas e descoladas também. A estratégia então é ocupar a cabeça para despistar o coração. Mas o medo (e a esperança) de encontrá-lo a cada esquina vai fazer parte de você como nunca havia feito antes.

Não importa quanto tempo passe, vai se sentir brutalmente traída quando um novo amor surgir na vida dele. Vai se sentir ofendida quando ele usar a camiseta que vocês compraram juntos pra apresentar a nova namorada no Facebook.

Também vai odiar os amigos dele que eram seus, achar absurdo que a mesma música que ele cantava para você esteja sendo direcionada a ela – e não importa se aquele som é o favorito dele, você vai sentir como se fosse exclusividade sua.

Aí, aos poucos, as saídas irão diminuir, a mágoa também e você vai estar disposta a conhecer gente nova de verdade. Vai entender que nostalgia não é saudade e que lembrar com carinho não significa que deseja a mesma vida de antes.

E aí vai saber que a vida continua. E daqui a alguns dias pode precisar de ler tudo isso aqui de novo porque um novo amor vai chegar e vai partir também.

Só então vai perceber que eu menti quando disse que o amor acaba. Na verdade, ele se transforma em lembranças bonitas. Mas não acaba nunca porque vai estar em você pra sempre e em paz. É apenas uma metamorfose.